Sábado, 5 de Dezembro de 2009

Carros como armas

A indústria automóvel está a substituir a indústria do armamento no pós-guerra fria. Para quem não se lembra, durante a guerra fria, no final do sécXX, os dois blocos construíram compulsivamente montanhas de armas que não faziam a mínima tensão de utilizarem e que mesmo em caso de conflito tinham duvidosa utilidade.

 

Aproveitando o desígnio estratégico autista dos estados militaristas, os fabricantes de armamento aproveitaram para criar uma fatia artificial da economia que se justificava a si própria (e aos contribuintes que pagavam a festa) não só pela suposta necessidade de defesa mas também pela quantidade de empregos que mantinham ocupados, uma espécie de subsídio de desemprego com actividades de tempos livres incluídas.

 

Uma vez que os militares não podem repensar uma decisão e não são grandes amigos de as pensarem de todo, o “complexo-industrial-militar” aproveitou para gerar durante décadas uma quantidade assinalável de inutilidades incrivelmente dispendiosas que foram impingindo a todos os aliados. Só Portugal comprou 2 submarinos, um satélite e umas dúzias de F16 que não servem rigorosamente para nada.

 

Passados vinte anos do fim da guerra fria os estados envolvidos ainda não se livraram do peso que se tornou o complexo industrial militar e já estão a criar um segundo assunto de estado. A indústria automóvel.

 

O caso dos carros é muito simples. 

 

Os países ricos fabricam quase o dobro dos carros que precisam.  Com tamanho excesso de capacidade seria inevitável que os piores fabricantes fossem arredados do negocio e obrigados a falir.  Abrindo um ciclo de destruição criativa que permitiria a emergência de carros que as pessoas precisam e portanto compram.

 

Ocorre que tal como o armamento, a fabricação de carros dá emprego a muita gente e os governos não têm coragem para assumir a perda desses empregos inúteis então pagam o que for preciso para manter a funcionar fábricas que fazem carros que ninguém quer comprar.

Com esta concorrência desleal, os poucos fabricantes que fazem carros decentes tornam-se incapazes de concorrer e herdam os problemas que eram dos outros. De repente toda a indústria está a sofrer com os mesmos problemas que deviam eliminar os maus fabricantes. Com o problema dos carros transformado num assunto de estado, todos os estados intervêm a fim de não ficarem com a fava.

 

Graças aos estados proteccionistas continuam a fabricar-se carros que ninguém quer e o problema ao invés de se resolver e desaparecer continua a crescer, exigindo cada vez mais dinheiro de todos para suportar os empregos inúteis de alguns. Os industriais do sector rapidamente percebem que a sua sustentação não está mais em fazer carros que sejam interessantes para os compradores mas em apontar a arma do desemprego maciço aos estados patrocinadores.

 

As pequenas fábricas em países periféricos, como Portugal, são fechadas para concentrar o poder de ameaça junto dos países mais desesperados e os stocks de carros continuam a acumular-se, independentemente da utilidade destes carros. Está então construído um novo complexo industrial do tipo militar.

 

O que deveria ter acontecido

 

Não há propriamente falta de carros no mundo. Toda a gente quer um carro e há biliões de pessoas que não têm um. Podiam ser vendidos biliões de carros capazes de sustentar a industria por anos e anos de saudável crescimento.

 

O facto é que os fabricantes não atenderam a essa necessidade, dedicaram-se antes a partilhar plataformas globais e destruir diferenciação construindo carros tão iguais entre si que foi possível pegar num mini-coreano Daewoo e chama-lo de all american chevrolet que ninguém se importou com a diferença.

 

Sem diferenciação, sem relevância, com benchmarking compulsivo os pouco originais fabricantes automóveis apoiados pelo estado transformaram o destino dos piores fabricantes no destino de todos os produtores.

 

O que deveria ter acontecido era que a competição livre teria aberto novos mercados automóveis, eléctricos, tatas nano ou modelos chineses, forçando a GM a uma falência que já vinha 30 anos demasiado tarde. Mas nada disso aconteceu, não houve renovação, aniquilou-se a diferenciação e nivelou-se por baixo a produção empurrando o problema cada vez maior para debaixo de um tapete de impostos que já não chega para o cobrir.

 

Em resumo

 

Ainda não nos livramos do complexo industrial militar e já temos outro elefante branco colossal apontado à nossa cabeça de consumidores. Tenham medo.

publicado por Consumering às 11:29
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