Domingo, 5 de Dezembro de 2010

Tradução: Vocês sabem o que quer dizer.

Antigamente ninguém se entendia. Cada buraquinho do mundo falava a sua linguagem particular e os contactos que tinham com outras línguas eram incrivelmente raros.

 

A distancia e a ausência de comunicações fazia com que a mesma língua, apenas porque falada em lados opostos de um qualquer canal ou montanha se transformava em duas línguas diferentes, que mais ninguém entendia.

 

Ainda por cima, só uma mão cheia de artolas super especializados sabia ler e escrever essa linguagem (qualquer linguagem), permitindo que o que eles escreviam e a forma como o faziam fosse basicamente ignorado por quem usava a língua. Mesmo que ignorados pela população em geral, estes iluminados não se fizeram rogados e apropriaram-se da forma, criando regras absurdas onde os seus erros e excepções eram travestidos de erudição.

 

Subitamente, ao fim de séculos de dispersão e fragmentação da escrita, iniciou-se o efeito inverso, a expansão do número e complexidade de diferentes línguas foi sendo substituída por uma crescente globalização das conversas. Num primeiro momento as línguas nativas foram dizimadas, aos milhares, criando a supremacia de uma dezena de línguas invasoras, quase todas indo-europeias.

 

Esse primeiro efeito pareceu sem consequências, logo após a conquista os colonos começaram a deturpar as línguas colonizadoras e os arcaicos doutores mantiveram o seu privilégio académico de decidir que tipo de erro era certo e que tipo de certo era erro. Voltava o status quo em que cada um falava a sua língua à sua maneira e uns poucos ditavam as regras ignorados pelos demais.

 

Curiosamente, esse primeiro momento expansionista global fora apenas um ensaio do efeito final. Com as tecnologias de comunicação, toda a gente fala com toda a gente e a língua deixa de ter incentivo a se particularizar na rotina de pequenos grupos isolacionistas.  Abrindo uma caixa de Pandora que entra em ebulição com a educação universal.

 

Todos agora sabem ler, todos falam várias línguas e todos conversam entre si, à escala global. A mortalidade dos dialectos acelerou-se e a dezena de idiomas invasores arrancou para mais uma ofensiva chacinando dialectos. A evolução da escrita tornou-se incontrolável.  Os académicos perderam o controle e as regras do jogo mudaram.

 

Escusado será fazer acordos ortográficos ou reescrever dicionários. São peças de museu, anacrónicas, rejeitadas pela quase totalidades das pessoas que lêem e escrevem um idioma. A língua, qualquer língua é agora de quem a usa e de quem a entende. Está tão mais correcta quanto mais pessoas a utilizarem. Quando mais flexível for às adopção de novidades das modas de massas. Quanto mais fácil dor de entender.

 

Por este motivo, o francês medieval, com os seus ordinateurs lentos e incompreesíveis, está tão morto quanto o Latim. Morto pelo inglês universal que ninguém fala correctamente como em Oxford, mas que todos entendem e manipulam sem dificuldade. O spanglish e o Brasileiro, bem como o Chinês e o Árabe têm também vastos seguidores empenhados, mas o resto, resquícios evolucionistas das comunicação intra-tribo, incompreensíveis para o mundo, estão obsoletos e vão desaparecer no nosso período de vida.

 

O golpe de misericórdia é dado quando um qualquer robot linguista, consegue traduzir tantas línguas com tanta rapidez e menos resistência que o maniento C-3PO. Chegando então ao ponto caramelo da evolução linguística.  Há uma quantidade de ofícios que estão a morrer. Os tradutores, substituídos pelas máquinas e pelo bilinguismo mundial. Os escritores em línguas de nicho. Os jornalistas de generalidades. Os publicitários de bairro. Os editores de obras traduzidas. Os diplomatas papa-festas. Estão todos condenados e quanto mais tarde se confrontarem com esta realidade, mais dolorosa será a sua queda.

publicado por Consumering às 11:45
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