Domingo, 4 de Julho de 2010

O valor do conteúdo é a escassez de suporte

A música é um produto bastante curioso. Um conjunto organizado de vibrações sonoras, facílima de replicar e capaz de gerar adesões em massa por parte das pessoas. Quais ratinhos de Hamelin, devidamente embalados pela melodia, os consumidores são capazes de mobilizações impressionantes.

 

Quem vê um concerto com dezenas de milhar de pessoas em sincronia perfeita a repetir um refrão, logo após desembolsarem mais 50 euros para ali estarem, é capaz de pensar que há imenso valor na música. Tanto assim que é que os directores de marketing, gente geralmente pouco dotada descernimento, desperdiçam parte dos seus orçamentos em patrocínios de festivais. Esses patrocínios estão ao nível de pouca racionalidade da generalidade das outras despesas de pseudo-marketing, mas têm a vantagem de contribuirem bastante para animar a vida de outro modo tristonha dos gestores. Só que esse assunto não é para aqui chamado.

 

A questão aqui é perceber porque é que aqueles milhares de pessoas são capazes de dar 50€ por um efémero concerto, torcem o nariz a dar 15€ por um CD com repetições infinitas da mesma música e fazem de tudo para não dar nem um euro por uma música em formato digital, que pode ser tocada infinitas vezes em inúmeros suportes. Qual o motivo para esta discrepância de valor, não será a mesma música?

 

A conclusão é simples, a música pelos vistos não tem grande valor. Como os restantes conteúdos, como as notícias por exemplo, a música não vale grande coisa quando é amplamente acessível e copiável. Na escassez de um concerto, tocado ao vivo por uma banda atolada em drogas que não sobrevirá à ocasião, vale dezenas ou mesmo centenas de euros. Ao mesmo tempo, quando o vinil ou o CD eram a única forma de reproduzir os sons, a relativa dificuldade de acesso ao suporte faziam-no valem uma boa dezena de euros. Agora, em formato de ficheiro digital, que é só baixar e tocar, vale perto de zero.  Ou quando muito vale 1 dólar se for disfarçadamente cobrado no Visa pelo itunes.

 

Em conclusão, o itunes, o vinil ou o lugar no concerto é que têm valor. A música, essa não vale nada. Tal como não valem as notícias, que colocadas completamente acessíveis online são verdadeiramente irrelevantes. Os jornais custam dinheiro porque o papel é um suporte conveniente para ler as notícias na esplanada, o mesmo conteúdo acedido pelo computador já não tem grande valor. Pelo mesmo motivo que muito mais gente paga um bilhete para ver um filme no cinema do que o paga no pay-per-view.  O mesmo efeito que levou o Avatar, por exigir uns óculos de plástico, a bater todos os recordes de bilheteira.

 

Os conteúdos não têm qualquer valor, o valor está todo na sua distribuição, sendo mais cara quanto for mais escassa. Os media, as editoras, as produtoras,  não parecem ter percebido isto e a ignorância está a mata-los.

publicado por Consumering às 23:33
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De Rui Hermenegildo a 5 de Julho de 2010 às 10:29
Dizer que o conteúdo não tem valor é um disparate.
Não vos contratava nem para fazer uma campanha de venda de sumos na esquina.
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